recriar um mundo
a cozinha tem moscas e as plantas não são mais tão verdes
desde que não fomos mais nós, um buraco imenso se abriu no meio da sala e todos os dias eu me empenho em desviar dele, pra não cair num abismo de nadas
desde que não fomos mais nós, um buraco imenso se abriu no meio da sala e todos os dias eu me empenho em desviar dele, pra não cair num abismo de nadas
não sei como disfarçar ele
minha pele é flácida, resultado de perdas não desejadas, quase não consigo comer quando habito esse endereço e isso me desanima
a falta do amor e a lembrança das iras fazem um barulho imenso que me deixa acordada madrugada a dentro e meu corpo só dorme quando chega no limite do cansaço e da responsabilidade, lembretes de sobrevivência
o cinzeiro lotado - esse péssimo hábito - me lembra que me mato aos poucos, como quem não tem coragem - ele diz quando o olho: tola
o cachorro é triste e ponto, ele prefere teu colo que não existe mais, prefere os teus elogios, ele não sabe falar a minha língua
me deparo com os pratos na mesa e me critico porque sou só e como posso sujar tantos pratos? e por que tantos copos sujos brotam pela casa se só tenho uma boca e duas mãos?
as paredes ainda são de outras cores e nunca pintei com o rosa que eu queria - não sei qual o melhor tom, não sei mais se sei fazer boas escolhas
me sinto incapaz e às vezes o lixo se acumula e demanda duas viagens de escada e tristeza até a lixeira na rua - pacotes a reciclar, pacotes para apodrecer
eu bebo menos água do que deveria porque a sede é outra
e converso comigo mesma em voz alta no banho tentando me convencer absoluta de que falarei só daqui em diante
minha pele é flácida, resultado de perdas não desejadas, quase não consigo comer quando habito esse endereço e isso me desanima
a falta do amor e a lembrança das iras fazem um barulho imenso que me deixa acordada madrugada a dentro e meu corpo só dorme quando chega no limite do cansaço e da responsabilidade, lembretes de sobrevivência
o cinzeiro lotado - esse péssimo hábito - me lembra que me mato aos poucos, como quem não tem coragem - ele diz quando o olho: tola
o cachorro é triste e ponto, ele prefere teu colo que não existe mais, prefere os teus elogios, ele não sabe falar a minha língua
me deparo com os pratos na mesa e me critico porque sou só e como posso sujar tantos pratos? e por que tantos copos sujos brotam pela casa se só tenho uma boca e duas mãos?
as paredes ainda são de outras cores e nunca pintei com o rosa que eu queria - não sei qual o melhor tom, não sei mais se sei fazer boas escolhas
me sinto incapaz e às vezes o lixo se acumula e demanda duas viagens de escada e tristeza até a lixeira na rua - pacotes a reciclar, pacotes para apodrecer
eu bebo menos água do que deveria porque a sede é outra
e converso comigo mesma em voz alta no banho tentando me convencer absoluta de que falarei só daqui em diante
não sei se sei recriar um mundo