olhar o tempo
trinta anos andando com quilos nas costas
mochila pesada, mas pretensamente bem equipada
pronta para tudo eu estive, para cada imagem de imprevisto
band-aid comprimidos e isqueiro em caso de frio para fazer fogueira
meias finas para o calor, meias grossas para o frio
mochila pesada, mas pretensamente bem equipada
pronta para tudo eu estive, para cada imagem de imprevisto
band-aid comprimidos e isqueiro em caso de frio para fazer fogueira
meias finas para o calor, meias grossas para o frio
um lápis, pois nunca se sabe quando quer escrever - essa necessidade vital
boné, lenço, biquinis também, óculos vários
produtos de higiene e roupas tantas
panelas, utensílios, muitas coisas
preparada para tudo
bastava alguém acenar, pedir
antes mesmo de terminar a frase eu já podia dizer
como um cachorrinho que quer atenção
eu tenho, conte comigo, pegue aqui, não precisa nem repor ou devolver
trinta anos andando com quilos nas costas
muito bem equipada, sem ser frágil, sem desmoronar
sem sequer se queixar dos pés
aguentando cada passada pesada e dizendo
não posso sofrer
e ainda
preciso atravessar a fronteira
é uma conquista desistir, deixar a mochila pelo caminho
aprender a me virar só com pedras e gravetos
precariedade, eu penso e me bato na sequência
há uma riqueza invisível em contar apenas com a força do corpo
atravessar também pode ser apenas se permitir
olhar para os ponteiros que correm em círculos
enquanto outras ideias melhores não chegam
e a musculatura retorna para seu lugar.