um ninho feito de avessos
não quero te assustar com o meu iceberg pontiagudo
ele se soltou da terra no domingo passado e balançou o meu mundo
ele tem dimensões inimagináveis e eu ainda não sei como conduzi-lo
não sou motorista habilitada
ainda
me espere
mas ele solto assim faz ondas que cutucam meu ponto mais sensível da costela
nada disso me deixa esquecer do abismo dessa nossa diferença
isso me causa um espanto constante
isso me causa um espanto constante
e um maravilhamento também
o modo como você fala carinhosamente
o modo como você fala carinhosamente
dos seus
são amores a sua sua sua família
repito sua porque isso importa
o modo como você se emociona por quem se emociona com a sua vida
esses afetos
você parece banhado neles talvez por isso brilhe tanto o seu sorriso
sorriso de quem
é amado
no presente
o filho amado de alguém no presente
não só no passado não só quando tinha placenta
daqui de cima eu vejo crianças brincando na rua enquanto seus pais as esperam na esquina nos portões das casas
elas têm uma casa pra voltar e mais do que as casas elas têm os abraços
ainda que às vezes zangados não deixam de ser abraços
eu não tenho
tenho braços aqui e acolá
braços soltos esporádicos
mas não o necessário para transformar esses braços membros do corpo em um abraço
há pouco tempo verbalizei em voz alta uma constatação dolorida
ambos os meus pais se casaram novamente - e com pessoas que não gostam de mim
elas se sentem ameaçadas achando que eu quero reuni-los novamente em matrimônio
devem achar que sou poderosa logo eu tão pequenininha
isso faz com que eu fique mais distante deles ainda
é um alívio mas definitivamente é uma tristeza
os novos amores deles me tiraram a chance de tentar remontar um amor meu por eles
um amor nosso familiar
me tiraram a chance de refazer o meu dicionário
lá ainda consta
família - substantivo feminino: um ninho feito de avessos para nunca mais voltar depois que você sair
eu não sei quem os meus pais são para além dos casamentos e da fúria e da miséria e do sofrimento e das dores e das queixas e do despreparo
ambos parecem querer continuar o fluxo de punição por existirem
o sorriso deles é um borrão na minha ficção
suas carnes imaginariamente estraçalhadas
pais em pedaços
eles vieram ao mundo sofrendo e sofrendo irão embora
essa é a minha herança mais volumosa
mas eu recuso esse martírio do qual eu não quero fazer parte
um menino na rua chora capturando meu olhar
suas bochechas brilham brilham brilham cheias de lágrimas largas
ele arrasta sua bicicletinha por uma única mão como se ela fosse um galho fino e seco
ele é pequeno mas ele é forte
ele chora porque seu pai gritou alertando sobre o risco dos carros velozes que aceleram e aceleram o tal progresso o tal sucesso
poderia ser considerado violento o grito assim brusco partindo a tarde ao meio
mas eu ouvi um grito de cuidado meu filho
meu meu meu
meu meu meu
meu filho
zunindo meu meu meu
coisa de quem pega pra si alguém para amar
para amar por extensão
porque talvez esse pai queira que esse menino viva o máximo que ele conseguir
porque talvez esse pai vá fazer o que puder para que esse menino viva mesmo
longe dos riscos dos carros longe da morte que a rua pode ocasionar
talvez esse pai jamais se case com alguém que odeie esse filho
porque seu amor é inegociável
isso nunca me foi dito desse modo
minha minha minha
filha
meu meu meu amor inegociável
sempre fui do mundo
nunca fui de ninguém
não pertenço
a nada nada nada