te escrevo meus sonhos que são duetos

escrevo meus sonhos como um canal que flui a céu aberto sem proteção nem cobertura

o inconsciente evaporando da água sob o sol escaldante e luminoso exatamente aqui nesse dezembro

somente neste dezembro isso é possível 

escrevo meus sonhos porque nada nada tenho a perder - já perdi um tanto no seu olhar e na sua boca

o que poderia ser pior?

eu escrevo meus sonhos para você porque você se fez presente neles numa noite cheia de zunidos de insetos que já devem estar mortos agora - errado demais seria te poupar das minhas imagens e dos meus sentidos e da minha linguagem

eu não vou te poupar de nada e já começo a lamentar por isso

eu escrevo porque esses sonhos são seus através de mim uma composição nossa um dueto

você quer dançar a valsa comigo?

o que eu posso perder além do que já perdi? muito do que eu já tive não existe mais

muito do que eu já tive fermenta abaixo do solo

e os gases inflamáveis se soltam da terra tóxicos densos a morte ali à nossa espreita ela sempre esteve

o tanto que eu me arrisco nessa valsa é a mesma medida do espanto eu não sei viver em solo firme

eu não sei viver parada eu nunca soube

a corda bamba acarinha e convoca meus pés feios sussurrando com a voz rouca ela diz 

venha venha venha tente um pouco mais você já sabe a dor do impacto já sabe o que fazer quando ralar os cotovelos os joelhos e o coração ficar estraçalhado você é boa em sofrer ela diz venha não hesite porque nada mais importante existe a partir deste ponto em que chegamos e daqui em diante nada mais importa

e eu te entrego o que tenho de mais digno

porque nada pode ser pior do que o meu silêncio ou dos meus dois pés fincados no solo firme