menos letal
noites atrás
eu acordei de madrugada
e sem forças pra escrever nada
sem forças pra esticar os braços e anotar qualquer palavra
pensei comigo
que precisava gravar cada cena desse sonho
eu acordei de madrugada
e sem forças pra escrever nada
sem forças pra esticar os braços e anotar qualquer palavra
pensei comigo
que precisava gravar cada cena desse sonho
sabe quando você sabe?
eu sabia no fundo, porque é sempre assim o cotidiano
que esqueceria assim que o dia amanhecesse
eu sabia no fundo, porque é sempre assim o cotidiano
que esqueceria assim que o dia amanhecesse
assim que a claridade invadisse o quarto que um dia foi nosso.
tentando me agarrar em cenas opacas
e nas falas que eu mesma montei
e que pareciam ser ditas em outra língua
porque incompreensíveis
só pude repetir para mim mesma, acordada no escuro
com a força de uma voz insuportável:
não quero ser como meu pai
eu achei que era pouco
um fiapo de dizer
mas bastou
(é interessante como as pequenas coisas, algumas vezes, nos bastam)
para que o furacão de dentro
saltasse para fora
e virasse, na medida do possível
menos mortífero
menos letal, pai
sinto tanto por nós.