ele diz

ele diz
arrogante você
e te atinge no peito
e na boca simultaneamente

ele diz, quase na mesma sentença do arrogante:
negligente
e se sente apavorado com o fluxo
sofrimento-amor-sofrimento-amor
e faz exigências de um futuro que não virá, para nenhum dos dois, eles sabem

ele chega e se aproxima
e logo em seguida te rejeita, em silêncio fúnebre
como se você fosse uma fruta podre
nauseante
e você se sente mais descartável do que nunca
como um pedaço de gente que não serve mais pra ele

ele já soube fazer e dizer coisas lindas
mas desaprendeu
ele goza na sua cara
ele goza com seu choro
mas em especial com a conquista de tantas coisas que não te dizem mais respeito
e continua, de novo e de novo até dissipar
você se sente minúscula, migalhas, pedacinhos
e aceita que você é mesmo

ele diz, indo embora
e agora ele é de fato ele
(ele foi muito pouco tempo um marido)
e a voz ganha volume e outro tom
e não há mais tempo, não há mais espaço
ele diz
você me quebrou
e a gente não se entende mais
ele quase nunca chora
porque decidido e racional
e enfim, vingado e talvez feliz também

você que não tem energia para mais nada e já deveria ter desistido há tempos
aceitando o fracasso de você, mais humilde
e conseguindo perder tudo o que ele diz
precisa conseguir mais do que isso


"Nunca conheci amor como este
O vento, lua, a terra, o céu (o céu tão alto)
Nunca conheci dor como esta
Quando tudo morre (tudo morre)"