batente da janela

Quem desconhece, vive bem. Ou a ignorância é uma benção.

Essa ideia de que saber muito dói bastante, me encontrou quando comecei a olhar pela janela, pro mundo, pra fora. Já era ruim o bastante ter notícias de que o mundo é quebrado, que existem as guerras, as epidemias, a mais valia, o povo quebrando o congresso - meudeus furando o Di Cavalcanti.

Quando pisei lá fora, no mundo, a perspectiva mudou e a janela, que era a mesma janela, me mostrou outra imagem. Por dentro tudo também era quebrado.

Não há outra perspectiva possível. Sentar na janela vai me obrigar a olhar ou pra fora de novo, ou pra dentro de novo também. No máximo, me sobra o batente, que é sempre igual.

Não há escapatória: saber muito dói bastante.

Tem uma amiga que diz que esporadicamente, quer esquecer que é alfabetizada. Só que o saber, esse que se constrói quando se olha janela a dentro, independe de qualquer livro, qualquer letra, qualquer caligrafia.
Esse saber tão desejado, procurado, o "autoconhecimento" e suas quaisquer jornadas, nada mais é do que não conseguir fugir de si mesma. Demanda. Demanda banhar-se consigo mesma, dormir no próprio corpo, viver com as vozes da própria cabeça. Demanda deparar-se. Desejar. Equivocar-se. Se constranger o tempo todo e sentir o rosto esquentar. Falar. Olhar-se na tela ou no espelho ou no reflexo de um carro e acostumar-se com a imagem ao mesmo tempo que sempre existe a chance de se surpreender com essa mesma imagem, cada dia mais a cara da minha mãe. Escrever coisas assim, repetidinhas, mas urgentes. Pesar a cabeça pra frente pra fazer o pescoço descansar por dois segundos e erguê-la novamente, pra poder olhar.

O saber muito dói bastante todos os dias. Mas ainda me faz querer olhar.

de 2021, mas de 2023 também.