Que estranho é, menina, te ver daqui de cima.
Eu não imaginava como era enxergar o teu cocuruto, o topinho da sua moleira fechando na velocidade da luz, porque você sempre foi tão alta e não havia ponta de mil pés que dessem conta de te alcançar. Algumas coisas eu não poderia ver nem mesmo se eu pegasse uma escada de trinta metros e a colocasse no topo do teu morro. De repente eu fiquei adulta com pernas de muitos paus, ganhei lupas abaixo das sobrancelhas, máquinas fotográficas fantásticas e famintas com um nariz bonito no meio - foco e desfoco assim sucessivamente, em busca de um retrato, um registro teu.
Eu não imaginava nem como era imaginar te ver assim. Minha fantasia pobre, arcaica, capenguinha, sem recursos, frágil como a masculinidade dele, não dava conta de sonhar certos sonhos e o astigmatismo me roubava desde a infância a nitidez das coisas. Eu te via em borrões.
Tive notícias dos teus braços finos amparando um livro cheio de minhocas. Também lembrei, no dia do teu funeral, sobre o lábio inferior virando pra baixo em qualquer sinal de choro. Há algo muito familiar em chorar. Talvez sejamos parentes.
Você chorava, chorava, chorava e chorava porque não sabia comer, depois chorava porque não sabia falar, depois chorava porque nunca aprendeu a cantar igual um passarinho, depois você chorou porque até sabia comer, mas não podia comer - até que chorou quando entendeu o que era perder a pele do joelho direito numa batalha intensa contra o cascalho da rua, então você chorou mais um tanto quando pensou quem dera perder a pele do joelho fosse a pior das perdas, porque chorou meses quando sentiu nos quilos o que era perder uma casa para um desastre artificial. Depois você chorou quando soube o que era ser desprezível, etiquetada como a pior da sua espécie e depois chorou pra ser mesmo, a pior que podia, a mais insuportável, a contagiosa. Mas nesse dia seus braços já não eram mais finos e você andava pesadamente e não sentiu vergonha. Mas chorava.
Foi quando te vi daqui do alto, no topo do teu achismo, no auge do teu grito. Uma pessoinha inteira, feita de carne, osso e sal. Somos exatamente a mesma.