teu medo é teu ele não é meu
naquela noite há muito tempo atrás que saudade nós gozamos juntos cinco ou oito vezes como se o mundo fosse inteiro se acabar apesar de nós em cima de nós em cima de nós
as bochechas vermelho sangue suor salgado conversas noite adentro eu me rasgando inteira na sua frente como nunca antes fiz era urgente uma calamidade
o que inaugura nós dois começa nesse abraço quente
abraço de cuidado quando o sol quase chega e depois passa pro teu sofá amarelo caro
isso tudo esse composto esse emaranhado o nosso estado de emergência fez a minha vida desmanchar naquela noite que logo virou dia
era uma sexta-feira que virou um sábado
a passagem do tempo me intriga
quem é que foi que inventou que depois do sábado não pode existir uma outra sexta-feira
quem é o dono do calendário eu quero falar com ele sobre isso imediatamente agora
naquela noite que virou madrugada depois dia e depois um amor maremoto eu fui engolida de modos que eu nunca soube ser engolida antes
que triste eu fui antes de conhecer a sua boca e seu cérebro que comanda tudo tão bem criativo
e naquela noite que virou madrugada e depois dia de calor nasceu em você um medo imenso
o medo de todos os homens do mundo juntos num corpo de um só homem o seu corpo
o seu corpo não o meu o seu medo não o meu o seu medo no seu corpo não no meu o seu medo do meu corpo no seu
eu nunca tive medo porque não notava os perigos de ser gente
eu nunca tive medo porque nunca tive nada a perder e talvez isso seja em português o sinônimo de muito desamparo