hair is everything!
O meu divórcio foi barra pesada. Pesadíssima. Pra mim. Eu costumo dizer que foi um divórcio com requintes de crueldade, porque eu não dimensionei como alguém que foi tão amado poderia ser tão sádico de um lado e o quanto eu, que amei tanto poderia ser tão masoquista de outro. Dupla imbatível pra muita morte, o des-casamento perfeito.
Eu achei que era uma ótima, não... ótima não, uma excelente ideia raspar as laterais do meu cabelo numa noite de bastante angústia em maio, pois isso me traria tantas coisas! Autenticidade, juventude, alegria, coragem, boletos pagos, feijão cozido sem explodir panela de pressão, uma capa pra voar alto pelo mundo, pele reluzente, a paz mundial, vidros limpos, resoluções... isso tudo espantaria minhas amigdalites, vacinaria meu cachorro e resolveria a minha vida, todos os meus b.o's e crises. Um plano impecável. Era promissor: eu seria super poderosa - eu e meu sidecut contra o mundo e nada mais iria doer ou sequer incomodar. Na minha cabeça - entre a ideia de jerico e a decisão final - rodava em replay a icônica cena de Fleabag: "hair is everything, anthony" (mas somente essa parte, tá? Eu recalquei a sequência que dizia algo como: se você quer mudar sua vida, mude sua vida, isso não vai acontecer aqui - no salão de cabelos). Eu seria moderna, despojada, elétrica, cheia de vida - e vida era tudo o que eu mais precisava. Decisão feita, vamos ao que interessa.
Eu não lembro se cheguei a compartilhar com meu amigo (que faz vezes de consciência pra mim quando estou perdida) sobre minha empreitada noturna ou se apenas comuniquei depois - em todo caso, eu teria ignorado a opinião dele nesse contexto, pois estava destemida demais, eu sequer ponderei. Era madrugada, sabe? Eu deveria estar dormindo e talvez chorando - mas também talvez estivesse cansada de só dormir e chorar.
Então comecei o ritual com muita pressa, essa pressa com disposição insuportáveis que vez ou outra se apossa do meu corpo: peguei a máquina de cortar cabelos e a encarei dizendo: "querida, vamos trabalhar". Uma máquina de cortar cabelos é um perigo doméstico, um equipamento como esse somente deveria ser operado por quem tem uma licença, uma carteirinha ou um distintivo de cabeleireiro, não deveria ser acessível para nós mortais e menos ainda para nós, desquitadas & tristes.
Munida de uma empolgação assombrosa e totalmente maníaca, eu tremia e vibrava na mesma frequência. Eu já cortei meu cabelo muitas vezes antes nessa vida, eu saberia como conduzir, eu dizia me olhando no reflexo. Coloquei o espelho comprido de revesgueio, em cima de uma cadeira, pra poder enxergar a nuca, uma luz horrível me guiava, uma gambiarra toda pra produzir outra gambiarra - o cenário de uma imensa tragédia. Dividi o cabelo com o meu pior pente e fui. Só o som manso da máquina alternando com o silêncio da rua.
BzzzzBzzz, Bzzzzzzzzzzzzz, Bzzz, Bzzzzz (repete 12x os BzzzBzzz).
Finalizado o trabalho, muitíssimo orgulhosa do meu cabelo novo, completamente destroçada ainda por dentro, porque cabelo novo não necessariamente faz seu o ex-amor ser menos odioso e não necessariamente ele te dá a autoestima que você muito precisa, fiquei feliz com o resultado.
Até que entendi que o resultado dessa aventura mudava completamente o meu rosto, deixava meio inviável e estranho prender o que ainda tinha de cabelo e estragava absolutamente TO-DOS os dois penteados que eu sabia fazer. Tudo bem, eu viveria uma aventura, uma novidade, "só se vive uma veeeeeeeeez". Ainda bem né, caralho?
Meses depois, ainda estou aqui... deixando esse espetáculo crescer e quase todo dia eu penso sobre raspar os cabelos todos e seja o que deus quiser. Também tenho pensado muito sobre perucas... nunca havia antes. Porque agora, vivendo a vida um bocado mais feliz e me sentindo muito apta pra encará-la, mas com um cabelo absolutamente incerto, indisciplinado, rebelde, maníaco, que me faz parecer um cotonete vez ou outra, estou desquitada sim e com o cabelo HORROROSO também, pensando o quanto não valeu um tanto de coisas que eu queria saber antes, pra poder fazer diferente. Não valeu muito não.
Se você está lendo esse relato fictício e talvez se divorciando, por favor, caminhe pra longe das tesouras e máquinas de cortar o cabelo, especialmente se não é licenciada para isso, pois a sua eu do futuro vai em breve muito breve estar feliz demais para ter um cabelo tão tão feio. A gente merece mais. Se preserve. Mesmo.