o desejo precisa de um corpo e um corpo precisa de uma casa
sei de um corpo que andou desgastado
vida afora
mirando os outros e se fazendo esquecido
como objeto perdido
no canto de uma bagunça
esse corpo que abriga um coração
que nasceu pra amar bastante
soube ser pouso de sonhos emprestados
até um momento que
não aguentou
como uma planta que amarela seca endurece e morre
na falta dos nutrientes corretos e condições propícias
esse corpo padeceu afinou até que desapareceu
passado o tempo foi necessário buscá-lo
tenho dúvidas se ele se refez
ou se surgiu inteiro novo
[aposto numa nova eu inaugural]
com salivas várias pedaços de fruta picada sangue coagulado
tudo isso requentado pelo sol fraco do sul
o que é necessário para fazer um corpo
receita
gororoba pra ser sincera
surge um corpo pálido de quase tudo
só os braços são amarelos e o cabelo
poroso demais para permanecer grudado na cabeça
a gororoba que virei se espanta se surpreende
com as mãos que preparam pães e me alimentam
boca adentro
é um choque e esse corpo flácido sente
como se os líquidos de dentro dele fossem
condutores muito espertos da eletricidade que me alcança
não estou morta
quando sinto o choque me desfaço em lágrimas e risadas
vida afora
mirando os outros e se fazendo esquecido
como objeto perdido
no canto de uma bagunça
esse corpo que abriga um coração
que nasceu pra amar bastante
soube ser pouso de sonhos emprestados
até um momento que
não aguentou
como uma planta que amarela seca endurece e morre
na falta dos nutrientes corretos e condições propícias
esse corpo padeceu afinou até que desapareceu
passado o tempo foi necessário buscá-lo
tenho dúvidas se ele se refez
ou se surgiu inteiro novo
[aposto numa nova eu inaugural]
com salivas várias pedaços de fruta picada sangue coagulado
tudo isso requentado pelo sol fraco do sul
o que é necessário para fazer um corpo
receita
gororoba pra ser sincera
surge um corpo pálido de quase tudo
só os braços são amarelos e o cabelo
poroso demais para permanecer grudado na cabeça
a gororoba que virei se espanta se surpreende
com as mãos que preparam pães e me alimentam
boca adentro
é um choque e esse corpo flácido sente
como se os líquidos de dentro dele fossem
condutores muito espertos da eletricidade que me alcança
não estou morta
quando sinto o choque me desfaço em lágrimas e risadas
volumosas simultaneamente
me parece que esse corpo que virei
vai precisar acolher com cautela a ambiguidade
rir e chorar na mesma sentença e na mesma sentada
estou na mesa sentada enquanto suas mãos
que são cheias de pintas e marcas constelações
me estendem um pêssego rosado e pesado
ouço
tome aqui sei que é do seu agrado
pergunto a voz baixa
como ele pode saber algo que nem eu sei
penso que devo ter confidenciado a ele os meus gostos
não me recordo
meu corpo é uma massa grossa de memórias e
esqueço o que disse há minutos antes
sinto vergonha em não lembrar a confidência frutífera que fiz então
sinto
vergonha
sinto
algo nesse corpo novo desastrado
que busca o sol como uma folhagem enclausurada de casa de centros urbanos
sei pouco sobre esse corpo imagino uma estrada
de descobertas a surgirem junto com esse espanto
que veste meus pés como meias grossas
é no espanto que piso
gostaria que a memória fosse mais ligeira que não me pregasse peças
a memória que morava no corpo antigo era ágil
uma gaveta de arquivos impecavelmente organizada
numerada as ordens alfabéticas os códigos que só eu sabia saber
para o olhar alheio minha gaveta particular era chamada de
competência das grandes
para mim
era desamparo o nome dela
meu corpo antigo era firme resolutivo
num piscar de um único olho
o mundo passava a girar de novo no seu devido lugar
realinhava alguma coisa torta
colava algo quebrado
ele tinha poderes muito mágicos
esse corpo novo
território a ser reconhecido observado mastigado
se dá o direito de ser lento
como nas manhãs de inverno da capital branca
que trazem a claridade em um conta-gotas
cada minuto nesse corpo não tem mais sessenta segundos
me parece que esse corpo que virei
vai precisar acolher com cautela a ambiguidade
rir e chorar na mesma sentença e na mesma sentada
estou na mesa sentada enquanto suas mãos
que são cheias de pintas e marcas constelações
me estendem um pêssego rosado e pesado
ouço
tome aqui sei que é do seu agrado
pergunto a voz baixa
como ele pode saber algo que nem eu sei
penso que devo ter confidenciado a ele os meus gostos
não me recordo
meu corpo é uma massa grossa de memórias e
esqueço o que disse há minutos antes
sinto vergonha em não lembrar a confidência frutífera que fiz então
sinto
vergonha
sinto
algo nesse corpo novo desastrado
que busca o sol como uma folhagem enclausurada de casa de centros urbanos
sei pouco sobre esse corpo imagino uma estrada
de descobertas a surgirem junto com esse espanto
que veste meus pés como meias grossas
é no espanto que piso
gostaria que a memória fosse mais ligeira que não me pregasse peças
a memória que morava no corpo antigo era ágil
uma gaveta de arquivos impecavelmente organizada
numerada as ordens alfabéticas os códigos que só eu sabia saber
para o olhar alheio minha gaveta particular era chamada de
competência das grandes
para mim
era desamparo o nome dela
meu corpo antigo era firme resolutivo
num piscar de um único olho
o mundo passava a girar de novo no seu devido lugar
realinhava alguma coisa torta
colava algo quebrado
ele tinha poderes muito mágicos
esse corpo novo
território a ser reconhecido observado mastigado
se dá o direito de ser lento
como nas manhãs de inverno da capital branca
que trazem a claridade em um conta-gotas
cada minuto nesse corpo não tem mais sessenta segundos
tem duzentos trezentos novecentos
salvação e horror no mesmo relógio
o corpo lento que passei a habitar
me faz reaprender a olhar os brotos de planta
que vivem na casa do meu corpo
desenrolam enquanto fazem música
meus olhos e ouvidos são impulsionados
se atente
não posso ignorá-los com os poderes mágicos que não tenho
sou obrigada sou obrigada somos obrigados
eu e meu corpo
a encará-los com responsabilidade e vez ou outra
modular o volume dessa melodia que invade a sala
nela meu corpo dança sozinho suado eufórico
longos goles de água
são necessários para que ele possa continuar a dança
assim o corpo lento já não se faz tão lento
recupero um fio de dignidade
ele não é lento mas ele não se torna ágil
ufa respiramos aliviados
nos entremeios das coisas
ele se torna desperto
e esse despertar de peles me chacoalha
gosto do movimento isso não me imobiliza
como antes presa
em ataduras curativos com pinos e gessos e fitas e casamentos e alianças e papéis documentos
esse corpo é elástico ele se move desperto
caminha de mãos dadas com os desejos
ondulações
ele enverga mas não se parte
é maleável
ainda não entendi
os quereres desse corpo recém-surgido
tento alcançá-los e
quando a ponta dos dedos tocam algo próximo
as asperezas se fazem sentir
num quarto fechado meu corpo verte seus fluídos
são transparentes e molham os panos que o abrigam
são quentes os fluídos quentes a ponto de sufocar
de dentro de mim brota tudo fervendo
quarto fechado seja lá qual for já não serve mais
quando por muito tempo parado
esse corpo em sua plasticidade se faz doer
um bilhete para que eu não esqueça
parar é muito perto de morrer
então decifro que parte desses quereres
que habitam meu corpo novíssimo
tem a ver com o movimento
vento nos cabelos porosos que agora crescem aos montes
passos de dança que ele nunca experimentou
portas abertas para arejar os poros e os ouvidos
amor o bastante para caber
nesse coração que é de gente grande
escuto esse corpo
como se escuta uma instrução importantíssima
p a u s a d a m e n t e e repetidamente
gravar as palavras parece caso de vida ou de morte
e é mesmo
analiso ele com a lupa que roubei de uma gaveta
numa quarta-feira chuvosa
e não deixo nem um centímetro dele sem ser observado
tateio como na leitura de quem não pode enxergar
suas partes que nunca tocadas por ninguém
dou atenção a ele e o nomeio
minha morada
dela tomo posse enfeito cultivo boas novas
e faço um trato muito sério comigo mesma
habitante e proprietária desse corpo
farei dele casa de abrigar os meus quereres
pois não posso mais deixá-los vagando por aí sem teto
salvação e horror no mesmo relógio
o corpo lento que passei a habitar
me faz reaprender a olhar os brotos de planta
que vivem na casa do meu corpo
desenrolam enquanto fazem música
meus olhos e ouvidos são impulsionados
se atente
não posso ignorá-los com os poderes mágicos que não tenho
sou obrigada sou obrigada somos obrigados
eu e meu corpo
a encará-los com responsabilidade e vez ou outra
modular o volume dessa melodia que invade a sala
nela meu corpo dança sozinho suado eufórico
longos goles de água
são necessários para que ele possa continuar a dança
assim o corpo lento já não se faz tão lento
recupero um fio de dignidade
ele não é lento mas ele não se torna ágil
ufa respiramos aliviados
nos entremeios das coisas
ele se torna desperto
e esse despertar de peles me chacoalha
gosto do movimento isso não me imobiliza
como antes presa
em ataduras curativos com pinos e gessos e fitas e casamentos e alianças e papéis documentos
esse corpo é elástico ele se move desperto
caminha de mãos dadas com os desejos
ondulações
ele enverga mas não se parte
é maleável
ainda não entendi
os quereres desse corpo recém-surgido
tento alcançá-los e
quando a ponta dos dedos tocam algo próximo
as asperezas se fazem sentir
num quarto fechado meu corpo verte seus fluídos
são transparentes e molham os panos que o abrigam
são quentes os fluídos quentes a ponto de sufocar
de dentro de mim brota tudo fervendo
quarto fechado seja lá qual for já não serve mais
quando por muito tempo parado
esse corpo em sua plasticidade se faz doer
um bilhete para que eu não esqueça
parar é muito perto de morrer
então decifro que parte desses quereres
que habitam meu corpo novíssimo
tem a ver com o movimento
vento nos cabelos porosos que agora crescem aos montes
passos de dança que ele nunca experimentou
portas abertas para arejar os poros e os ouvidos
amor o bastante para caber
nesse coração que é de gente grande
escuto esse corpo
como se escuta uma instrução importantíssima
p a u s a d a m e n t e e repetidamente
gravar as palavras parece caso de vida ou de morte
e é mesmo
analiso ele com a lupa que roubei de uma gaveta
numa quarta-feira chuvosa
e não deixo nem um centímetro dele sem ser observado
tateio como na leitura de quem não pode enxergar
suas partes que nunca tocadas por ninguém
dou atenção a ele e o nomeio
minha morada
dela tomo posse enfeito cultivo boas novas
e faço um trato muito sério comigo mesma
habitante e proprietária desse corpo
farei dele casa de abrigar os meus quereres
pois não posso mais deixá-los vagando por aí sem teto