querer agarrar as águas

hoje falei de você e talvez o algoritmo tenha me mandado uma foto de baleia na minha direção pra que eu pudesse fazer um contato assim, como quem não quer nada
sinônimo do teu nome talvez seja baleia, só pode ser assim
me peguei conversando sobre você com a A. e repassando coisas, viajando meses pra trás pra entender
que mania besta é essa de querer agarrar o invisível com as mãos
quem é você, senhor estranho? e por que dividir uma intimidade que era só minha, mas pensava que era compartilhada? quando é que a vida deixa de nos atropelar? quando é que as palavras param de brotar, porque são afinal, indizíveis e impossíveis?
tanto aconteceu por aqui, tanto que eu quis dividir
tanto que eu, sem jeito, nem soube segurar, quem dirá compartilhar? tanto tanto tanto se passou pela ponte, águas turvas, riachinho, enchentes escuras e pegajosas, folhagens pedaços, água calminha com cheiro de frescura, tanto tanto tanto
e eu permaneço sobre a ponte, olhando só pra baixo, jogo pedrinhas, espero o barulho que não acontece ou desaprendi a ouvir, observo a água remexer de novo e de novo, um infinito embaixo da ponte, o musgo se desprende e avança por aí, perco ele de vista e continuo a olhar, mas meus óculos caem na água e vejo menos ainda
sei que algo ali passa, passa e passa, tanto e tanto que não volta
que mania besta é essa de querer agarrar todas as águas com as mãos