medo, estranho desfigurado

queimar o medo com um cigarro aceso
apagar a brasa no seu rosto cheio de vincos
encarar o medo através dos olhos do medo
enfrentar o medo com o medo mesmo
falar dele, em voz alta, sem temer seus efeitos de fala mágica
sem o senso comum da tensão da atração
assumi-lo
ele existe e é real

o medo, desconhecido meu, estranho desfigurado, chega perto
forte e firme, coluna ereta e ombros largos
serve uma dose de cachaça frutada num copo vagabundo
e bebe como se fosse fácil
sua voz não desafina como a minha
e ele diz:
estou aqui
eu digo:
finalmente você está
seja bem-vindo em casa

o medo é masculino, dos homens
o medo é, afinal, daquilo que ele me rouba:
uma vida, um tempo, um corpo
e os sonhos
o medo é masculino
mas a coragem não
e ela não falta nunca
comparece mesmo como quem tem um compromisso muito sério:
ser parte daquilo que sou, ser parte daquilo que sou
ser parte daquilo que sonho