o mar imenso é logo ali
No início do percurso, lá em 2021, um medo quase paralisante gritou alto aqui: medo de não saber articular as palavras, medo de não saber fazer as perguntas certas, medo de não saber nada de nada, de saber pouco ou de saber coisas inúteis demais, ridículas demais diante desse grupo de psicanalistas. Medo de não ter as ferramentas certas pra descobrir esse território e me sentir perdida o tempo todo. Me perguntava: "será que se alguém se perde no meio do caminho, vem alguém e resgata?".
Eu entendo agora - mas só agora - que esse tremor de medo é tudo aquilo que me colocava em constante desânimo, indisposição e preguiça com qualquer grupo de psicanálise. E que gigante é poder animar-se novamente!
No passar do percurso eu modifiquei minha interpretação de sujeito. Me permiti escutar mais e me livrei de várias tralhas que só faziam pesar. A paisagem daqui é muito mais bonita do que eu poderia imaginar e me colocou em contato com a minha melhor concepção de humanidade, com o meu desejo de mergulhar e, ainda, com um fazer criativo, mesmo quando esse fazer ainda luta bravamente por desamarrar os nós-que-complicam-demais ou quando batalha arduamente por fazer a clínica, esse lugar que é tão sutil pra se chegar.
Escrevendo isso, lembrei que há alguns meses atrás tive um sonho belíssimo, estava no litoral buscando uma praia específica, uma que começava com a letra c (e que eu, curiosamente, não conseguia lembrar o nome, não importa o esforço que fizesse). Eu estava ali e ninguém sabia me dar as coordenadas exatas de como chegar lá. Isso me deixava irada "como assim ninguém vai me dizer por onde ir?" mas eu perseverava, porque a vista era linda e o clima era bom. Essa praia, esse mar de mergulhar que começava com a letra C, e que por fim talvez seja a tal da clínica (a pergunta certeira que o Eduardo colocou em cena), hoje se achega nas vistas, um vislumbre de admiração, de espanto e de desejo.
Esse grupo generosamente ofereceu o mais interessante dos kits de sobrevivência pra saber ultrapassar o solo viscoso das psicanálises tradicionais, tão enclausuradas, tão heteronormativas e excludentes. Psicanálises que por vezes colocam analistas em dívida e em dúvida, em uma angústia sem amparo algum ou até mesmo em desistência. Será que esse é um movimento de favor da vida? Um ensino que afasta, não que agrega. Um determinado ensino, na verdade, que diz "seu mapa está errado, melhor voltar" ou ainda "você não adquiriu o mapa certo, volte mais tarde". Esse grupo aqui também possibilita um não andar só, seja às vezes segurando a mão de alguém pra ultrapassar um buraco muito grande ou apenas sendo convidada, por quem já esteve corajosamente por ali, a desviar um trecho que não parece interessar tanto ou que parece enganar muito. Foi bonito demais caminhar munida de ferramentas e companhias assim.
Aqui eu tive notícias de que um novo jeito de fazer o mundo não só é possível, mas é urgente. E agradeço com muito afeto por cada um e cada uma que neste espaço emprestou sua urgência, não a de chegar lá, mas a de continuar procurando o caminho e não recuar.
Então, o percurso acaba
e no fim não tem chuva de papel picado, não tem um pote de ouro, não tem uma cabana pra deitar e descansar os pés e não tem sopa quente pra afagar o corpo.
Esse é um daqueles fins dos quais eu não queria me deparar
desde janeiro penso:
"não me sinto pronta".
de repente a frase desloca e volta assim:
"não me sinto pronta para nada a não ser sentir as urgências."
Respiro de novo, retomando o fôlego.
Digo para mim mesma: agarre seu kit, coloque as botas (ou melhor, os chinelos de ir à praia) e limpe os óculos: o mar imenso é logo ali.