rumorejo

sonhei que estava na Bahia
- eu de novo na Bahia -
num barco de madeira que rangia
igual aos barulhinhos de dentes rangendo
as ondas de mar agora eram do rio
era rio, mas com a potência, o barulho e o medo que o mar dá
e o barco virava, mexia, virava e não tombava 
e a água inundava o barco
escorria pelos meus cabelos
molhava minhas roupas e eu não sentia frio
- incrivelmente eu, a pessoa que usa meia calça com 22 graus, não sentia frio com a água -
o vento parecia que ia derrubar tudo
tinha árvore que brotava de dentro da água
cobria o céu e não deixava a luz passar
e num corredor fininho de rio
peixes bordeavam a água verde-escura
emergia a espuma dos movimentos dos rabinhos de peixe
balançantes e dançantes
os corpos dos peixes que se debatiam:
a piracema* ali, diante de um barco, diante de mim
um assombro, um sussurro.


ETIM(1560) tupi pira'sema 'saída dos peixes para a desova' < pi'ra 'peixe' + 'sema 'sair', donde 'saída de peixe, isto é, a desova'